terça-feira, 9 de dezembro de 2008

A Balada de Beldur

Lamnor, antes do surgimento da Aliança Negra e da queda de Lennórienn, a cidade dos elfos.

Uma agradável melodia ecoava por toda Lennórienn. Sua fonte, um bardo dedilhando seu alaúde à sombra de um enorme carvalho. Uma leve brisa presnchia todo o ambiente, fazendo pétalas voarem à volta do bardo. seu colete vermelho aberto balançava ao sabor do vento, assim como seus cabelos loiros. As sandálias repousavam ao pé da árvore, encobertas pelo chapéu vermelho de abas largas. Uma pena de fênix adornava-o, colocada no topo.

Em um lago, com uma pequena queda d'água despejando frescor, uma bela elfa banhava-se. Seus cabelos azul-claro adquiriam variadas formas, ora grudando-se ao corpo estonteante da elfa, ora formando figuras abstratas ao gosto do vento que soprava. A pele molhada e brilhante era um convite à imaginação do bardo, fazendo-o delirar cada vez que ela emergia da água.

A melodia acompanhava o ritmo da elfa, o ritmo acelerando-se quando ela chegava à superfície e exibia seu corpo, e tornando-se vagaroso quando ela presenteava os peixes com sua presença.

O bardo mantinha-se sempre oculto na mata, permanecendo no bosque desde antes dela chegar, até muito depois que ela tivesse saído. Ficava ali, pensando em quão belo seria aquele romance. Mas tinha medo de que ela o rejeitasse. Eram apenas amigos de infância, consideravam-se irmãos. Então, tentava conquistá-la pela música, limitando-se a ser a trilha sonora dos momentos em que banhava-se naquele paraíso.

Em certo momento, distraiu-se olhando as nuvens, perdido em seus devaneios, e quando voltou seu olhar para sua musa, viu algo terrível. As águas antes transparentes do lago estavam manchadas de sangue, e o corpo inerte da elfa boiava, com uma flecha na nuca. Desesperado, correu até ela para tentar ajudar, embora sabendo que nada podia ser feito. Notou que a flecha era de hobgoblins, provavelmente batedores.

O bardo tomou-a nos braços, já com lágrimas escorrendo pelo seu rosto e tocando na elfa. Então chorou. De revolta, de tristeza, de raiva. Orou a todos os deuses que conhecia para trazê-la de volta, sobretudo Glórienn, mas nenhum atendeu. Decidiu então fazer uma melodia que tocasse até mesmo o coração divino.

Trancou-se em sua casa durante dias. Uns diziam que não comia, apenas trabalhava na canção. A maioria dizia que tinha enlouquecido.

Semanas após, foi encontrado morto, debruçado em seu alaúde e em algumas anotações. uma delas dizia: "Será que eu poderia simplesmente desistir disso tudo? Não, deixar de existir, jamais!". E então todos entenderam: onde quer que estivesse, ele estaria sempre trabalhando em sua canção para trazer sua amada de volta.

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- Essa é uma lenda entre os bardos. Não se sabe se é verdade ou não, mas a única coisa que temos certeza é que não importa o que você é nem de onde vem, se tem amor por algo, lute por ele, Vá até o inferno, se preciso. Mas nunca desista dele.



- Por Miguel, o Bardo 2/Swashbuclker 18

Contos de um Bardo

Malpetrim, a cidade portuária mais movimentada do Reinado, prepara-se para o Festival de Malpetrim, onde é possível encontrar tudo, ou quase tudo que se procura, desde uma simples poção a uma rara magia, tornando-se assim, um dos pontos mais visados pelos avetureiros durante esse período.

- Por favor senhor, bardo, conte-nos novamente aquela história, do tal Paladino de Arton - disse uma menina com olhos castanho claros e cabelos ruivos
- Há! Mas ela de novo, contarei uma mais interessante. Uma que aconteceu em um festival em Zarkharin - disse o meio-elfo, que se diferenciava dos demais bardos, por suas largas vestes negras que cobriam seu franzino corpo, seu cabelo vermelho como o fogo de Thyatis balançava ao vento e seus olhos cor de mel, que quase não podiam ser vistos devido ao chapéu negro que usava enfeitado com uma pluma cor de rosa.

Algumas pessoas que passavam pela praça por ali ficavam ao ouvir as contagiantes palavras do bardo.

- Bem então contarei uma história , de dois deuses, que por pura disputa entre si, fizeram da vida de um elfo e de seu pequeno companheiro um verdadeiro inferno. Essa eu acho que não. Ela possui palavras que vocês não podem ouvir.
- Conta assim mesmo! - um menino careca gritou em resposta.
- Então tá. Começa assim.

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O manto de Tenebra já encobria os céus trazendo consigo, além os perigos da noite, uma espessa neblina que reduzia a visibilidade de quem caminhasse àquela hora. Desafiando as condições desfavoráveis, dois seres desafiavam a névoa, mal se aguentando em pé. Encontrando uma árvore, eles param para poder descansar.

- Já vamos parar Miguel? Ainda não deu nem pro gasto - disse o halfing, que parecia mais com uma fada pelo tamanho que tinha, sendo uma raridade em sua raça, pois media cerca de 15 centímetros, suas vestes verdes feitas sob medida caberiam em uma boneca infantil, seu cabelo de coloração negra encobria parcialmente seus olhos, que demonstravam uma determinação que muitos homens não tinham.

- Vai se fuder, porra!! Tu fica no meu ombro e ainda reclama, corno maldito!! - disse Miguel, um meio-elfo com talvez a roupa mais chamativa do Reinado. Usava uma camisa verde com mangas que chegavam até os punhos, calças amarelas que terminavam pouco depois do joelho, onde começavam suas botas pretas. Por cima disso tudo tinha ainda um manto vermelho, garantindo que fosse notado onde quer que fosse. Possuía um chapéu preto com uma pluma rosada, que dava-lhe um charme especial, encobrindo seus cabelos negros e olhos azuis. Desnecessário dizer que era um Swashbuckler.

- Se você quiser eu vou andando, mas vamos ter que seguir no meu ritmo.
- Porra!! Se formos no teu ritmo morro de velhice antes de chegarmos em Valkaria.
- Vamos fazer uma fogueira. Quero dizer, faça uma fogueira.
- Pode deixar, vou fazer uma fogueira e te usar como lenha, ou talvez te ponha no espeto, já que tô com fome mesmo. Se bem que você não deve nem tampar o buraco do dente...
- Uhum... O que é aquilo ali?
- Até parece que eu vo cair nesse truque, Wolf, eu sou esperto demais para isso! Vim de Ahlen, não lemb...
- Eu to falando sério, o que é aquilo que ta vindo ali? - Wolf aponta na direção oposta a que Miguel olhava.

No meio da neblina, surgia aos poucos uma forma humanóide, porém muito maior do que um humano e, aparentemente, com algo nas mãos, movimentando-se vagarosamente na direção da dupla.

- O que será que pode ser, Wolf?
- Não sei, mas é melhor você ir lá ver antes que chegue mais perto. Qualquer coisa, eu te cubro a retaguarda.
- Mas é claro! Sempre sobra pra mim... - dizendo isso Miguel movimentou-se velozmente em direção a criatura, mantendo a mão sempre no cabo de seu florete. Ao aproximar-se mais percebeu que a tal criatura na verdade era um meio-orc, embora não conseguisse destinguir o que ele carregava. Miguel, aproveitando-se de sua velocidade, dá um salto, desambainhando seu florete e atingindo em cheio o peito da criatura, que aparentemente não se preparara para o ataque, indo parar, agilmente, atrás do meio-orc.

- Droga! Mais um inimigo... - estendendo seu braço Wolf fez surgir por baixo de sua manga um tai-tai, arma típica dos halfings, que a utilizam tanto para combates quanto para torneios de arremesso de pedras. Com um rápido movimento ele apanhou uma de suas pedras especiais e a disparou contra a criatura, a pedra ao ser arremessada começou a emitir uma energia luminosa e a expandir-se rapidamente, e quando chegou em seu alvo já havia adiquirido o tamanho de um crânio humano, atingido com precisão seu estomago fazendo o meio-orc ir de cara ao chão.

- Mas que droga é essa Miguel, porque você atacou? - disse Wolf ao se aproximar.
- Olha só, ele é um meio-orc...
- E daí? Ele por acaso havia te atacado ou qualquer coisa do genero?
- Não, mas todos nós sabemos que os orcs não são nada amigáveis, certo? Então, como ele é meio-orc, considerei era só meio amigável,e ataquei a parte que não era amigável. além do mais, ele estava com algo em mãos, logo não poderia ser nada bom.
- Bem vamos virá-lo para ver melhor.

Ao virarem o meio-orc, eles perceberam algo de estranho em suas vestes, sendo elas rústicas, de uma coloração verde-musgo e com um simbolo de uma pequena árvore, cheia de ramos, bordada em seu peito. E veêm caído ao seu lado um porco, recentimente abatido ainda sangrando pela boca. Percebem, então, que na verdade o que o provável druida de Allihanna queria era ajudá-los, dividindo um pouco de sua refeição. Só lhes restou correr encontrar um modo de trazer o meio-orc de volta a vida, mas isto é uma outra história...


- Por Rhar-Mark, o Morto-vivo contador de histórias

sábado, 29 de novembro de 2008

Redenção - Conto de Abertura do Blog

*todos os contos publicados aqui são de autoria conjunta ou separada de Paulo e Jhonatan. Por favor, respeite os direitos autorais e poderemos ter uma boa troca de informações sobre RPG e relacionados.*

Lars, o elfo, já caminhava faziam horas. Desde a destruição de Lenórienn, a cidade élfica, esse era seu presente e futuro. Perdera amigos, parentes, esposa... tudo em vão. Tudo por cauxa de um maldito bugbear que desejava aniquilar a gloriosa raça dos elfos.

Lutara bravamente, embora sem qualquer resultado significativo. Para cada goblinóide que matava, vinham outros cinco prontos para arancar couro élfico. Agora, Lamnor se tornara escasso e sem vida. Ou melhor, sem vida que valesse a pena.

Seu destino tornara-se, então, caminhar sem destino, cantando um novo hino, o hino da derrota e arrependimento. Arrependimento por ter sido tão orgulhoso e subestimado os goblinóides, arrependimento por não ter lutado até o fim. Mas, mesmo se ficasse, de nada adiantaria; a batalha havia sido perdida.

Em sua tortuosa caminhada, encontrara diversos grupos de resistência, mas estes não duravam muito: eram estuprados e mortos. Sua visão estava turando e escurecendo, apesar do sol forte castigando sua pele. Seu corpo foi perdendo a fora e fraquejou, levando-lhe ao chão. E seus olhos se fecharam e tudo virou trevas.

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Quando acordou, a noite já ia alta. Tentou mover-se, e percebeu que estava deitado no chão, amarrado. Mãos e pés atados com grossas cordas, impedindo qualquer movimento. Buscou a faca que sempre trazia presa à perna, vindo a encontrá-la metros à sua frente, junto com seus outros equipamentos.

Usando de sua destreza elfíca, desamarrou, ainda que com esforço, a corda que prendia seus pés. Com dificuldade, arrastou-se até seus equipamentos, mas foi repelido violentamente com um chute na boca. Sangue e dentes voaram para a terra úmida.

- Nada disso, elfo. - disse a figura que havia desferido o chute.

Levantando a cabeça, Lars percebeu que estava em um acampamento élfico. Não entendia por que um elfo estava amarrado e havia sido agredido em um acampamento de elfos. Mas logo percebeu o motivo: eram todos servos de Tenebra, elfos que voltaram as costas para Glórienn e abraçaram o confortável manto da tristeza e do ódio.

Eram seres que não conseguiam admirar a beleza nas coisas assim como os outros elfos; viam apenas as marcas deixadas. Suas vidas eram repletas de amargura e ressentimento. E, principalmente, de ódio a todas as criaturas. Eram reclusos apenas à sua seita e seus semelhantes.

Dentre os grupos existentes na sociedade dos elfos negros, destacam-se os Garras de Tenebra, uma versão pervertida dos Espadas-de-Glórienn, os paladinos da Deusa dos Elfos. Eles são os guerreiros de elite, e é desejo de todos os elfos negros tornar-se um deles.

Controlando a seita, há um conselho formado por dois guerreiros, dois magos e dois clérigos. Estes, por sua vez, são liderados por Berforam, o primeiro elfo negro a surgir e o preferido de Tenebra.

- Levanta moleque!
- O que vocês querem de mim, malditos trai...
- Já disse para levantar!! - disse novamente o elfo negro, golpeando-lhe no estomago, fazendo-o cuspir sangue.
- Vocês, servos de Glórien, tão cegos com sua fé que não enxergam a verdade.
- O que vocês entende de fé? - Lars levantava com dificuldade, procurando os olhos de seu agressor. - Escolheram somente o caminho mais fácil!!
-Se acredita tanto em sua deusa mostre que ela é merecedora de sua fé.

Acabando de se levantar, Lars investiu contra Berforam, acertando apenas o vazio. O elfo negro esquivara agilmente para o lado esquerdo, gargalhando.

- É tudo isso que sua deusa tem a oferecer?
- Não desafie nossa Mãe! - Lars investiu contra o servo de Tenebra, visando o rosto do oponente.
- Nossa? Fale por si mesmo! - Disse Berforam, aparando o golpe. - Já está na hora de despertar para a verdade de nosso mundo, elfo. Sua deusa já não se importa mais com seus filhos. - o elfo negro desferiu um potente soco no estomago de Lars, fazendo-o se curvar, para logo depois acertá-lo com uma joelhada no queixo. Com o impacto do golpe, o elfo foi arremessado para trás, indo de encontro ao chão e ficando em estado de semi-consciência.

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Uma tarde, alguns anos antes.

Lars brincava com sua filha em um dos inúmeros jardins de Lenórienn. Melissa girava e sorria, seu sorriso iluminado pela aconchegante luz de Azgher, o Deus-Sol. Seu rosto exibia um sorriso radiante enquanto divertia-se com a boneca que Lars fizera para ela. Lianna assitia tudo da janela de sua casa, os olhos brilhando de felicidade por Glórienn ter lhe presenteado com uma família tão boa.

E então a Aliança Negra atacou.

Eram ataques e mais ataques, quase sem intervalos de tempo regulares. E, a cada ataque, a quantidade de elfos protegendo Lenórienn diminuía. Lars lutava não por si, mas por sua família.

Formou-se então um conselho para decidir como a Infinita Guerra prosseguiria. As opiniões eram divergentes. Uns acreditavam que se apenas se defendessem, venceriam a guerra mais cedo ou mais tarde. Outros defendiam a idéia de um ataque com carga total. Mas o pronunciamento do regente calou todos:

- Enquanto eu for o regente de Lenórienn, os elfos jamais viverão acuados! - bradou Khinlanas, sendo logo apoiado por todos. - Se as nações do norte não querem nos ajudar, destruiremos os malditos hobgoblins sozinhos, e reafirmaremos a superioridade dos elfos sobre todos as raças! - o regente recebeu vivas e aplausos. Estava decidido.

Os elfos atacariam com carga total.

Pouco antes do ataque final, Lars conduziu Melissa e Lianna para uma passagem secreta, desconhecida pelos goblinóides. A passagem levava para fora da floresta em segurança.

- De lá, caminhem sempre para o norte que alcançarão Khalifor. Independente do que acontecer aqui, lembrem-se: eu amo vocês. - E despediu-se da esposa e da filha beijando-as afetuosamente.
- Por favor, papai venha com a gente!
- Não posso, filhinha. Eu tenho que ajudar nossa raça.
- Mas papai...
- Vamos fazer uma coisa: sempre antes de dormir, olhe para o céu e lembre-se das nossas brincadeiras. Imagine que eu estou te abraçando e eu estarei. Agora adeus. - uma lágrima furtiva escapou de Lars.
- Até logo papai. - Melissa já em prantos.

Os portões de Lenórienn se abriram e milhares de Espadas-de-Glórienn, os paladinos da Deusa dos Elfos, marcharam rumo ao acampamento goblinóide. Os elfos trajavam armaduras esverdeadas, adornadas com o símbolo de Glórienn e empunhavam lanças enormes. Suas espadas estavam afiadas como nunca estiveram, prontas a derramar sangue goblinóide.

O exército élfico era liderado por Berforam, o preferido de Glórienn. Sua bravura em combate era inigualável, e isso que fizera os elfos resistirem por tantos anos contra as investidas hobgoblins.

Mas desta vez era diferente. Não haveria resistência, haveria ataque. Não haveria medo, haveria coragem. Não haveriam goblinóides, haveriam elfos.

E, sob a liderança de Berforam e Khinlanas, os milhares de elfos marcharam rumo à morte.

Poucos sobreviveram para contar a história.

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Lars foi trazido de volta para o presente com um safanão no rosto. Lágrimas abundantes fugiam de seus olhos equanto a tristeza era substituída rapidamente pelo mais puro ódio. Um sorriso brotou no rosto de Berforam. Já estava começando a dobrar o elfo.

- E então - começou Berforam - aceita minha proposta? Abandone a Traidora e junte-se aos que buscam uma punição para quem merece!
- Eu... - Lars hesitava - aceito. O que eu tenho que fazer?
- Primeiro, descanse. Amanhã teremos um longo dia.


A noite não foi fácil. Via repetidas vezes amorte de sua esposa e filha, e em todas elas não coseguia mover-se para salvá-las, como se estivesse com cordas envolvendo todo o seu corpo. Mas houve uma vez em que não foram os goblinóides que assassinaram sua filha: fora ele próprio! Logo que sua espada encontrou o pescoço de Melissa, Lars acordou ensopado de suor. Tenebra já começava a cobrir Arton com seu manto escuro e estrelado.

- Siga-me. - Berforam apenas disse isso, e foi o suficiente para Lars levantar-se rapidamente e acompanhar seu tutor.

A própria floresta exalava tristeza e amargura. O tronco das árvores era enegrescido e úmido, com galhos crescendo cabisbaixos e folhas escuras, em choro constante. A trilha era escura, mas nada que fosse problema para um elfo. Sua visão privilegiada permitia-lhes enxergar a uma enorme distância na escuridão quase total.

Chegando a uma clareira, Lars e Berforam subiram sorrateiramente em uma árvore e ocultaram-se na sombra fornecida pela copa repleta de folhas largas. Na clareira havia um elfo. À sua frente, uma fogueira consumia os últimos galhos secos, e já iria se apagar. O elfo vestia uma túnica verde claro, e seus longos cabelos dourados escorriam fartos até quase a cintura. Carregava apenas uma espada longa, arma tradicional dos elfos, que agora estava ao lado da fogueira. Ele tentava assar um coelho abatido recentemente, embora sem sucesso; o fogo estava fraco demais. Inconformado, deitou-se na grama baixa e fechou os olhos. E, por algumas horas, estaria com Glórienn, a Dama Élfica.

- Você apenas deve matá-lo. - sentenciou Berforam.
- Mas ele é apenas um servo. Não tem culpa de nada!
- Ele louva uma deusa falsa! Mate-o e livre Arton de seres como este! - O sussurro de Berforam quase tornou-se um grito.
- Sim, mestre. - Os olhos de Lars lampejaram um ódio recém-conquistado.

Lars saltou graciosamente da árvore e pousou na grama com suavidade. Aproximou-se do elfo pelas costas, desembainhando sua espada longa.

- Olá, irmão. Precisa de algo? - ofereceu o clérgio, com os olhos ternos que só os irmãos têm.
- N-Não... - respondeu Lars, desconcertado. - Na verdade, sim. - Apertou mais firmemente o cabo da espada.

Em um movimento rápido, Lars tentou decapitar o elfo, errando feio. O clérigo olhava desnorteado. O que poderia estar acontecendo com aquele elfo?

- Por que isso, irmão? - o clérgio apenas esquivava dos seguidos golpes do elfo angustiado, jamais contra-atacando.
- Porque é assim que tem que ser! - Lars enterrou a espada na barriga do clérigo. Berforam observava orgulhoso.

Lars sentiu uma enorme angústia crescendo dentro de si e um manto de escuridão descendo sobre seu corpo. A noite tornava-se mais escura e o brilho das estrelas diminuía, assim como a felicidade de Lars. O elfo caiu de joelhos, não aguentando o peso do manto tristeza. Dentro de si, desenrolava-se uma batalha: a luz mínima de Glórienn contra as trevas de Tenebra. E as trevas estavam vencendo.

Tomado por uma angústia insuportável, Lars investiu contra o clérigo de Glórienn, descrevendo um arco longo com a espada e decapitando-o.

- Bom, muito bom. - Berforam aplaudia com pouco entusiasmo.
- Eu não queria ter feito isso! Eu... Não devia! Ele era apenas um clérigo de Glórienn!
- Ela nos traiu! Traiu a todos nós! Nos abandonou quando mais precisávamos dela! Responda-me, das vezes que você orou a ela pela sua família, quando ela respondeu?
- Mas é graças a ela que minha família está viv...
- Viva? Será que está mesmo? Ou já foi morta e estuprada pelos malditos goblinóides? - Berforam descontrolava-se.
- Elas... Eu... - Lars balbuciava para si mesmo - Ela deve pagar. - disse entre dentes.-

Nesse momento, os olhos de Lars tornaram-se mais negros que a noite, asim como seu cabelo. Sua pele empalideceu aos poucos e sua armadura adquiriu um tom azul-escuro, refletindo o céu estrelado. O elfo olhou em volta, buscando a mulher, sem, porém, nada encontrar.

- Meus parabéns. Você agora é um Garra de Tenebra. - disse Berforam, estendendo a mão para Lars para ajudá-lo a se levantar.

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- Não, por favor! - implorava inutilmente um elfo, que teve a cabeça separada do corpo por um rápido golpe de Aiji, arma tradicional dos Garras de Tenebra. A arma consistia em pequeno arco, no qual a parte correspondente ao fio era a empunhadura e a lâmina era o arco propriamente dito. Um sorriso brotou no rosto de Lars.
- Ha! Ha! Não poderia querer coisa melhor! - Seus Aijis eram extensões de suas mãos, devorando sangue e músculos élficos. Parecia que a cada elfo que matava, os olhos e os cabelos de Lars tornavam-se cada vez mais negros.

Arremessando um dos Aijis na garganta de um dos magos do acampamento, Lars sacou sua espada longa e aparou um golpe surpresa de um meio-elfo do grupo. Ele cambaleou para trás devido ao impacto e abriu a guarda; teve o peito perfurado pela lâmina de Lars.

Já não havia mais oponentes vivos. Mais um acampamento élfico deixava de existir devido aos Garras de Tenebra. Lars sentia um misto de felicidade e alívio, que logo passaria para novamente dar lugar à sua já conhecida angústia e sede de morte.

- Já terminei aqui também! - uma voz feminina preencheu toda a floresta.
- Ótimo. Já está na hora de voltar para casa. De qualquer forma, foi uma boa caçada.
- Sim, mestre.

Um vulto foi revelando-se à medida que saía da parte mais escura. Era uma bela elfa, com olhos e cabelos negros, assim como os de Lars, trajando uma meia armadura negra que realçava sua feminilidade. Eles juntaram-se e caminharam pela floresta escura, de volta para a sede da seita.

Durante a caminhada, um sentimento desconhecido crescia dentro de Lars. Era como uma dor por ter matado tantos elfos em poucos anos. "Ela nos traiu, ela deve pagar", repetia constantemente para si, tentando apaziguar essa dor.

- Veja! mais elfos! - disse Aribeth, uma elfa negra em treinamento.
- Vamos! - Mal terminou, Lars iniciou uma corrida, já com os Aijis em mãos, na direção dos elfos.

Eram seres deploráveis. O grupo era formado por um arqueiro, um mago, um ranger e uma clériga de Glórienn, todos com mantos negros. O ranger afiava as lâminas de sua espada dupla, o arqueiro contava suas flechas, o mago reorganizava as magias que ainda possuía disponíveis e a clériga orava para sua deusa. A clériga possuía algo de familiar para Lars. Rapidamente ele expulsou esse pensamento de sua mente e concentrou-se na missão: matar elfos.

Lars saltou das sombras e seu aiji foi de encontro ao pescoço do ranger, sem dar-lhe chance de reação. Aribeth preferiu uma abordagem mais furtiva: arremessou uma adaga envenenada na direção do arqueiro, que acertou em seu peito. Mesmo cambaleando e com a visão turvada pelo veneno, Lithus, conseguiu mirar e disparou uma flecha que se cravou na barriga de Aribeth. A elfa negra, com dificuldade, retirou a flecha, que revelou um pequeno, porém profundo, ferimento. Sem forças para continuar de pé, o arqueiro entregou sua alma aos deuses, caindo para trás, cuspindo sangue.

Lars por pouco não foi atingido por um relâmpago que saltara das mãos do mago, e ainda teve tempo para notar que a clériga olhava fixamente para ele, sem qualquer menção de tocar em armas. Aqueles olhos...

O mago já preparava outra magia quando foi surpreendido pelos dois Aijis de Lars que, em um movimento cruzado, separaram sua cabeça do corpo. Em seguida, Aribeth arremessou sua última adaga envenenada na clériga de Glórienn, que foi salva da morte certa por Lars, que entrara na frente do ataque e arremessara seu Aiji na companheira, matando-a. A clériga mirou nos olhos do elfo negro. Fartas lágrimas escorriam, lágrimas de ódio, de amor, de arrependimento e, sobretudo, de felicidade.

- Pa...papai... - foi só o que a elfa conseguiu dizer, durante aquele momento que parecia uma eternidade.
- Finalmente, encontrei você! - o elfo abraçou a filha, ignorando a dor da adaga encravada em suas costas.
- A mamãe, ela... O que houve com o senhor? - mal conseguia articular as palavras.
- Entendo... Melissa... - Lars tentava falar, mas o veneno já estava fazendo efeito. - Agora entendo, mesmo tarde demais.Glórienn não nos abandonou, nós é que a abandonamos por causa de nosso orgulho doentio. Ela esteve sempre ao nosso lado, nos ajudando como podia, enquanto a ignorávamos. Obrigado, Glórienn, por proteger Melissa. Se permitir, irei ao seu encontro e ao de minha amada Lianna.
- Fique!! - Melissa preparava a magia de cura, mas foi impedida por Lars.
- Não faça isso. Lembre-se estarei sempre perto de você, guiando seus passos. Quando se sentir sozinha, olhe para as estrelas e lá estarei. Adeus.

E ficaram assim, abraçados, por não se sabe quanto tempo até que Melissa decidiu carregar o corpo para enterrá-lo em um lugar especial. Após cavar o buraco ela mesma, depositou cuidadosamente o corpo de Lars ao lado de Lianna.

Dali a alguns dias, notaria que estariam nascendo entrelaçadas duas roseiras exatamente acima dos corpos. E escreveria em seu diário:"Se há algo que pode desafiar a vontade dos deuses, isso é o amor."

- Por Miguel, o Swashbuckler